quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Na Rua - António Gomes Leal

Vejo-a sempre passar séria, constante, 
- Às vezes, inclinada na janela, - 
Tranquila, fria, e palido o semblante, 
Como uma santa triste de capela. 


Seu riso sem calor como o brilhante 
No nosso lábio o próprio riso gela, 
E ela nasceu para chorar diante 
D'um Cristo n'uma estreita e escura cela. 


Seu olhar virginal como as crianças 
Jamais disse do amor as cousas mansas; 
Jamais vergou da Força ao choque rude. 


Abrasa-a um fogo divinal secreto! - 
eu sinto, mal a avisto, ao seu aspecto, 
O brio intenso e negro da Virtude. 

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